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Fim do gigante Guangzhou na China

O Guangzhou FC, fundado em 1954, foi por anos o principal time da China antes de desaparecer. Heptacampeão chinês consecutivo, o clube viveu seu auge na década de 2010, contratando nomes como Felipão, Paulinho e Conca, mas fechou as portas após a falência de uma empresa bilionária.

Em entrevista ao ge, Luiz Felipe Scolari, o Felipão, relembrou o período. “Quando a crise aconteceu na Evergrande, o clube foi muito impactado. Foi uma queda muito grande. Afetou muito os jogadores. Fico bastante triste, mas foi uma época muito bem vivida. Eu mantenho essa alegria de dizer que foi um dos melhores lugares que eu vivi. Era incrível. A amizade que a gente fez lá, o carinho do povo era espetacular. Fico triste pelo que aconteceu com o Guangzhou, mas alegre por ter participado disso tudo junto com eles”, disse o técnico.

O clube, com apelido de “Tigres do Sul da China”, surgiu como uma representação do governo local, uma estratégia comum no futebol do país. Ele só se tornou profissional 39 anos após sua fundação, em 1993, e alternou entre promoções e rebaixamentos em sua primeira fase.

A situação piorou em fevereiro de 2010. O Guangzhou foi rebaixado para a segunda divisão como punição por um esquema de manipulação de resultados em 2006. A investigação, conduzida pelo Ministério de Segurança Pública, também prendeu dirigentes de outros times, ex-vice-presidentes da Associação Chinesa de Futebol, um árbitro da Fifa e jogadores da seleção nacional.

Com a reformulação administrativa e o clube à venda, surgiu a responsável pelo seu futuro sucesso: a incorporadora imobiliária Evergrande. Ainda em 2010, a empresa comprou o Guangzhou por 100 milhões de yuans (cerca de R$ 25 milhões na época) e o renomeou para Guangzhou Evergrande.

O fundador da Evergrande, Xu Jiayin, se tornou o principal gestor dos investimentos. Em uma década, a empresa acumulou 150 bilhões de dólares em ativos, aproveitando o crescimento do setor imobiliário chinês. Jiayin chegou a ser o homem mais rico da China em 2017.

“(A gestão do Guangzhou) Tinha um aporte financeiro muito bom. Eles cumpriam e desenvolviam o time. Quando mostramos algumas carências em alguns aspectos, como na área de saúde e de trabalhos físicos, eles foram atrás e nos deram um retorno muito rápido. Eles estavam preocupados em desenvolver o futebol chinês”, explicou Felipão sobre o projeto.

Com esse poder financeiro, o time ficou conhecido como “Chelsea da Ásia”. A reformulação começou ainda na segunda divisão, com contratações de peso como os chineses Sun Xiang e Zheng Zhi, e o brasileiro Muriqui, ex-Vasco e Atlético-MG.

Sobre sua transferência, Muriqui contou: “Foi complicado. Eu estava no Atlético Mineiro, um clube de ponta, que tem estrutura e quando soube que era da Segunda Divisão confesso que titubiei. Eles apresentaram o projeto, estavam dispostos a investir, mas admitiram que estavam com dificuldades para contratar. Na China, os clubes não têm estrutura para subir. O Guangzhou era o único”.

Campeão da segunda divisão ainda em 2010, o clube voltou à elite e iniciou uma série de contratações famosas no futebol brasileiro. Passaram pelo time: Conca, Lucas Barrios, Paulinho, Elkeson, Alan, Aloísio, Talisca e Ricardo Goulart.

“O ambiente era muito receptivo. Quase todos os brasileiros que foram jogar no Guangzhou foram muito bem. Pode-se tirar um ou outro atleta, mas todos os outros fizeram história no clube”, disse Felipão, que hoje é coordenador técnico do Grêmio.

O clube também investiu em comissões técnicas renomadas, contratando os campeões mundiais Marcello Lippi, Fabio Cannavaro e o próprio Luiz Felipe Scolari. Os resultados foram oito títulos do Campeonato Chinês (2011-2017 e 2019), duas Ligas dos Campeões da Ásia (2013 e 2015), duas Copas da China e quatro Supercopas. Felipão se tornou o técnico mais vencedor da história do clube.

Em 2020, foi anunciado um projeto ambicioso: a construção de um estádio para 100 mil pessoas em formato de flor de lótus, com custo estimado em 12 bilhões de yuans (cerca de R$ 8,9 bilhões na época). A previsão de inauguração era 2022, para receber a Copa da Ásia.

Entretanto, o sucesso da Evergrande, que cresceu cerca de 44% entre 2004 e 2020, foi construído sobre uma série de empréstimos. Os juros dessas dívidas se tornaram insustentáveis, levando a empresa à maior crise de sua história. A empresa, que já foi a maior incorporadora da China, entrou em processo de falência, arrastando consigo o futuro do Guangzhou FC.

Sem o apoio financeiro da sua controladora, o clube enfrentou uma queda vertiginosa. De heptacampeão e potência asiática, o Guangzhou viu seu elenco ser desfeito, seus projetos cancelados e, finalmente, encerrou suas atividades, marcando o fim de uma era no futebol chinês. A crise da Evergrande serviu como um exemplo dos riscos do modelo de negócios baseado em alto endividamento no setor esportivo.

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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