O Dragão Fashion Brasil Festival (DFB) completou quase 30 anos e, nesta edição, voltou às suas origens na região da Praia de Iracema, em Fortaleza. O evento fez parte do calendário oficial de comemorações do tricentenário da cidade.
No último dia do festival, o estilista Lino Villaventura montou uma passarela na Ponte dos Ingleses. Ele apresentou uma coleção com nervuras que lembravam cristais de gelo e patchworks com formas de sistemas fractais. Pela primeira vez desfilando à luz do sol, o estilista, que é paraense de origem mas cearense de carreira, mostrou um lado diferente do que costuma apresentar no SPFW.
O DFB foi criado em 1999 pelo produtor Cláudio Silveira. Ele decidiu que o Ceará tinha algo a dizer além do que era mostrado no eixo Rio-São Paulo. “Hoje, a nossa luta é outra. Toda vez que a moda brasileira finge que só existem dois ou três sotaques, todos sofremos uma espécie de apagamento. Seguimos gritando por respeito pela moda autoral”, afirmou Cláudio.
A região da Praia de Iracema concentra parte da produção cultural de Fortaleza. Desde 2019, a cidade está na lista de capitais criativas da Unesco. Os 40 desfiles do evento, todos gratuitos, buscaram dialogar com a história e a arquitetura do bairro.
O festival tem como objetivo ser um celeiro de novos talentos. No entanto, isso gera uma tensão: quanto mais marcas estreantes são incorporadas, maior o risco de diluição da identidade. Muitos desfiles usaram temas como artesanato regional, materiais naturais e paletas de terra e bege.
Nomes como David Lee se destacaram ao traduzir o imaginário dos festejos sertanejos em peças com bordados e crochês florais. A jovem Patú, que surgiu em 2021, homenageou o compositor Ednardo em seu desfile de estreia, um dos melhores da temporada. A Studio Orla, focada no público masculino, foi adotada pelas mulheres e apresentou um desfile com texturas e bordados manuais.
A iniciativa Mãos da Moda, parceria da plataforma Nordestesse com o Riachuelo Lab, foi um dos projetos mais interessantes. Oito criadores da Bahia e da Paraíba trabalharam com mais de 60 artesãos para criar coleções integradas, apresentadas nos últimos três dias do festival. O resultado foi variado: em alguns casos, o diálogo entre design e artesanato produziu algo novo; em outros, o artesanal serviu como ornamento.
O desafio para o DFB, que se aproxima dos 30 anos, é transformar o repertório cultural em plataforma para experimentação, e não apenas em selo de autenticidade. Os desfiles mais interessantes foram aqueles em que artesãos e criadores produziram algo que nenhum dos dois faria sozinho.